“Em dia com a Psicologia”
Sutil diferença

A educação infantil está cheia de exemplos onde a punição e a coerção estão atuando. A punição acontece quando faço alguma coisa e levo um tapa, por exemplo. A coerção acontece quando eu deixo de fazer uma coisa com medo de ser punido ou de que alguma coisa me seja tirada (por exemplo, faço a lição de casa para não ficar sem ver tv).

Mas a educação apenas reflete as coisas que acontecem na sociedade de uma maneira geral. Reproduzimos na educação o que aprendemos que funciona na vida e nem nos damos mais conta do motivo que nos leva a agir. Não ultrapassamos a velocidade sinalizada para que não precisemos pagar a multa que viria depois, por exemplo. Isso é agir por coerção.

A punição e a coerção funcionam muito bem a curto prazo. Se meu filho faz uma coisa errada e leva um tapa, não vai fazer novamente. Funcionou. Pelo menos por alguns dias e pelo menos quando ele estiver perto de mim. Mas, e depois de um mês? E quando ele estiver longe de mim? (E quando eu souber que naquele trecho não há radares?) Será que eu ensinei que aquilo é errado ou será que eu ensinei que se ele fizer aquilo perto de mim vai apanhar? É… parece que a longo prazo a punição não é muito eficiente…

E se eu tivesse explicado porque aquilo não podia ser feito e ensinado o que ele deveria fazer e, quando ele fizesse o que é certo, eu tivesse dado um abraço nele? Aí eu poderia dizer que realmente ensinei ao meu filho alguma coisa. Ensinei porque não fazer e o que fazer como alternativa. Mesmo quando eu não estiver presente e mesmo depois de algum tempo, posso dizer que ele fará o que eu ensinei. Nesse caso, ao invés de punir, eu incentivei o que eu queria ensinar. Dei alternativas de como agir e dei atenção, incentivei quando ele fez o certo. Essa forma de ensinar tende a trazer mais satisfação e felicidade a longo prazo.

Algumas sutilezas do dia–a-dia evidenciam que a gente pode ser melhor em relação à educação dos filhos. Imagine uma família que vai almoçar. O pai olha para o filho e diz: “Se você não comer tudo, não vai ganhar sobremesa”. A criança come tudo e ganha a sobremesa. Na casa ao lado a família almoça. O pai vê que o filho comeu tudo e diz “Que beleza! Comeu tudinho! Olha que delícia de sobremesa você vai ganhar!”. São diferenças sutis. As duas crianças comeram toda a comida e as duas ganharam uma sobremesa. A primeira foi coagida a comer tudo. A segunda comeu e foi incentivada (pela sobremesa que ela ganhou depois) a comer tudo da próxima vez. Quem almoçou com mais prazer?

Luciana Rosa Machado
lu_rosa@bol.com.br.

Artigo publicado pelo Bragança Jornal Diário em 2004

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